quarta-feira, 31 de maio de 2017

jovens

A adolescência é, ao que parece, uma criação moderna, mistura de uma reorganização do tempo, com a introdução de uma alongada fase escolar, na vida, e uma reorganização do espaço, o espaço privado das residências, o espaço das cidades. É, de todo modo, um dos grandes fenômenos da modernidade, com a colonização da vida adulta pelos valores que foram, com o tempo, criados para ou pela adolescência. Em certo ponto, a adolescência, além de existir, tornou-se parte da fonte de conflito central nas sociedades atuais, o conflito de gerações, ao tempo em que se transformava em ideal de vida, dado pelo consumo, a incluir o consumo de bens da indústria cultural.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

agora

Nem sempre o urgente se confunde com o importante. Isso, claro, por certa perspectiva. Urgência quer dizer prioridade, o que é um critério de importância, esse do aspecto temporal. De todo modo, a prioridade pode não ter profundidade, ou seja, pode não tratar realmente dos grandes problemas. Ela passa a ser uma prejudicialidade, algo que necessita solução, para permitir o retorno da atenção aos grandes problemas. Há certa ansiedade com o urgente. Um dos problemas dele, o urgente, talvez mais importante que a questão da profundidade, é aquele da escolha. Em regra, o urgente não é escolhido, ele aparece. A urgência é uma certa falta de agência, a necessidade de focar no que surge, não no que se quer.

quarta-feira, 24 de maio de 2017


o futuro

A primeira quebra da sinceridade é o futuro. A pessoa pensa qual sua situação na futuro e olha para lá de maneira relativa. Pensa no presente e nas outras pessoas. O futuro deve ser melhor. Para se garantir no futuro, ela se apavora no presente e altera seu comportamento.

...

Alguns chamam de liberdade certo dono em lugar de outro.

terça-feira, 23 de maio de 2017

deep

A especialização de uma classe política é uma das principais linhas de compreensão do mundo atual - e, com ela, a migração da compreensão da representação, agora como encenação. Como a internet, existe a internet visível e a deep web, a política e a política profunda.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

qual fomento?

A crise política, surgida da profunda desonestidade revelada, dentre outras coisas, explica porque o Brasil tem um complexo sistema de fomento e benefícios fiscais e uma economia ineficiente e atrasada. A economia é apenas um pressuposto para a circulação do dinheiro dentre mãos escolhidas e o fomento é o alimento de um sistema corrupto.

apetite e intriga

Estava já programado para ler o livro "Dinastia"de Tom Holland. Havia já lido Rubicão. Nada programado pela temática política atual. De qualquer forma, uma das grandes magias do período romano clássica é o tema da intriga. A percepção do homem do período clássico parece superior, ao menos dentro de alguns quadros, a qualquer teoria normativa moderna do homem. Existe uma sutileza que me parece superior nas ideias de apetite, vício e intriga, no que na ideia econômica de maximização do próprio bem estar. Parece que, por exemplo, nos degraus mais altos da sociedade, o que move o homem não é o próprio bem estar, sequer uma racionalidade maximizadora instrumental. O espírito de conjuração e poder é algo em si. E o bem estar parece um sem tamanho apetite, simplesmente. A relação do homem não é com as coisas, nem com a riqueza. É com os outros homens, adversarial e redentora. A vitória do marxismo de inspiração soviética é permitir o compartilhamento da redenção pessoal do líder, como redenção do partido.

adams

Um dos grandes pais do embate de argumentos em tempos de crise é Samuel Adams. Duas frases dele não deixam dúvidas: i. "We cannot make Events. Our Business is wisely to improve them"; ii. "Put your enemy in the wrong, and keep him so"

instrumentalizada

Na política, os lados servem de parâmetros e referências, uns aos outros. A rejeição e o cinismo estratégico são mais valiosos que o pensamento puro. A prioridade política de evitar o outro é o centro de força. E toda estratégia é uma instrumentalização. Valores deixam de ser valores e viram ferramentas, instrumentalizadas por aquele centro.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

fragmentos

A crítica do presente distingue a sociedade contemporânea, das sociedades tradicionais. A ordem dada não é natural. Ela pode ser o resultado histórico de injustiças ou a precariedade, a realidade provisória tendente à obsolescência. Mas a crítica é fragmentada e o presente, seja ela o que for, é a tensão entre os fragmentos. Contraditoriamente, o presente, precário ou injusto, ganha força pela impossibilidade de uma oposição total, por não existirem totais.

tirania

A grande força sobre o homem é a formação da identidade, a narrativa pessoal sobre si. Como a pessoa se vê dá a visão não apenas sobre ela. Conforma a visão externa. A subjetividade é a tirania da identidade.

...

Justiça é o interesse em dissonância cognitiva.

terça-feira, 16 de maio de 2017

...

"law functions best only when it is fitted to the life of a people" - harlan fiske stone

segunda-feira, 15 de maio de 2017

vivendo de novidades

O Direito é inconsistente e contraditório. Rótulos largos permitem argumentos opostos e valores diversos convivem dentro do sistema, a permitir interpretações e pretensões diversas, conforme o interesse de cada qual. A indeterminação do Direito se mescla com seu crescimento e a confusão de entidades competentes para sua aplicação. A organização das sociedades fica confusa e litigiosa. Há uma mudança na estabilidade do Direito. Sua lógica se move dos princípios estabelecidos para o novo - surge uma necessidade crescente de algo novo na vida jurídica, seja por obra do legislador, seja por obra do aplicador ou do estudioso. A grande vertente de sucesso do jurista passa a ser não a estabilização ou consolidação do sistema, mas sua ruptura, pela construção constante de novidades.

domingo, 14 de maio de 2017

2014

Para Teju Cole, Twitter tem sido uma importante parte de sua criatividade ("So, Twitter has been good for humor, provocations, and for thinking about new ways to deliver the ideas that are important to me", no livro de ensaios Known and Strange Things)... pena que o último tuíte em seu perfil seja de julho de 2014. Talvez um bloqueio artístico-tuiteiro.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

2.0

Ataque cibernético em massa na Europa, quando Ulrich Beck encontra Daniel Solove.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

fraturas

A mudança é sempre parcial ou, ao menos, não plena. As alterações dos modos não determinam o desuso absoluto do modo superado. Um dos problemas que surge é o da persistência. Como valorar o certo ou errado dentro dos blocos fragmentados. Por exemplo, dentro da linha de secularização das sociedades, como valorar a permanência do pensamento religioso como guia da percepção de mundo? As mudanças tecnológicas são mais agudas pelo esgotamento das possibilidades de mercado do ultrapassado. Nos modos e nos comportamentos, entretanto, nem sempre há algo tão absoluto, para cortar a reprodução e a repetição do tradicional.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

arte

A arte viveu - e, provavelmente, não mais vive - um tempo de transbordamento de razões, nas últimas décadas. Os motivos da arte foram os motivos dos novos tempos. Habermas escreve, em "O Discurso Filosófico da Modernidade", que "é no domínio da crítica estética que, pela primeira vez, se toma consciência do problema de uma fundamentação da modernidade a partir de si mesma". A arte se fragmenta, busca sua própria obsolescência e substitui a virtuosidade pela ruptura.

macron

Macron é o mais jovem governo da França desde Napoleão, além de não ser de nenhum dos dois partidos majoritários. A vitória foi esmagadora, sobre Le Pen. Além do mais, ele nunca havia sido eleito para nada. A França conseguiu encontrar uma alternativa ao sistema político tradicional e a opção rancorosa de extrema direita. Só falta saber se a França comemora quem ele é, ou quem ele não é (Fillon, Le Pen e os socialistas). Deve ser daqueles casos de descobrir o que está dentro da caixa depois da compra.

domingo, 7 de maio de 2017

simples

John Marshall foi uma pessoa muito simples, informal e pouco preocupada com sua aparência. Parece que era querido e festivo. Não sei como eram seus antecessores, nas cortes inglesas, mas deve ter sido um dos primeiros juízes a quebrar o formalismo dos grandes juristas da Common Law.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

tradição familiar

Até a eleição de Lincoln, as duas mais radicais sucessões presidenciais nos Estados Unidos foram as que trouxeram Jefferson e Jackson para a presidência. Curiosamente, os derrotados foram dois Adamses, John e John Quincy, pai e filho (1801 e 1829). Tanto um, quanto outro faltaram à posse de seu sucessor.

a barriga e o cérebro

"There is an important difference in the scope of the power of a State to regulate what feeds the belly and what feeds the brain", Frankfurter em Smith v. California, 1959

quinta-feira, 4 de maio de 2017

problemas

Consta que um antigo político francês, Henri Queuille, disse que a política não é a arte de resolver problemas, mas de silenciar quem os levanta: "La politique n'est pas l'art de résoudre les problèmes, mais de faire taire ceux qui les posent". A frase parece boa, faz sentido, mas não é exatamente o eixo da questão. A política vive de emergências e elas de problemas. Acho melhor a outra, "il n'est aucun problème assez urgent en politique qu'une absence de décision ne puisse résoudre" - não há problema urgente em política que uma ausência de decisão não resolva. Talvez seja que a política não seja o silêncio do problema, mas a sequência que coloca um em lugar do outro (as duas frases estão na wikipedia).

terça-feira, 2 de maio de 2017

cisão

Gostamos de narrativas e gostamos de heróis. Nossos maiores homens (ou mulheres) são os sujeitos de narrativas heróicas, os que nos reivindicam no mundo. Ideias sem sujeitos, sem agentes da narrativa, nunca alcançam o auge emocional e o vínculo afetivo do herói. Talvez, por isso, vivamos o sucesso das ideias extremas. O extremo é o emocional, que podemos vestir sobre alguém, nosso herói. Nossa racionalidade é instrumental. Nossos fins são emocionais. Nossas emoções vivem na cisão, na divisão entre nossos heróis e seus inimigos. Não existe ideia sem contraposição, não existe herói sem opositor.